meu querido aniversário de 19 anos. mas existem motivos e mais motivos por essa data ter sido tão querida assim...
desse dia inteiro, se destacou apenas um momento que durou minutos.
inusitadamente, lá estava ela, tão linda quando eu idealizei, parada, me olhando, no horário e local mais desadequados.
um amor sentou-se ao meu lado, e eu o aceitei de imediato. creio que nessa ocasião, meu coração sentia-se fadigado de ser cruelmente apunhalado diversas vezes, e então, considerou a hipótese de suas batidas, que aos poucos aceleravam, tornarem-se complacentes por alguém que lhe daria cuidados sem exigir muita coisa em troca.
foi um pedido recheado de formalidades, seguido dos olhos sem acreditar e a boca sem saber se sorria ou se escondia-se atrás da mão com sintomas agudos de nervosismo. e, por último, o sim. a resposta foi previsível, e eu retribuí com um largo sorriso e um beijo carinhoso em uma das maçãs salientes de seu rosto.
apaixonadamente feliz com a minha insólita situação, eu já não enxergava mais nada ao meu redor além do rosto de minha terna e frágil namorada.
ficamos ali, naquela mesa, nos olhando, nos abraçando e trocando carinhos, até que a sombra de um rosto interrompeu esse estado de gestos afetuosos.
olhei, vi, mas não acreditei que pudesse ser, voltei meu rosto pra direção em que ele se mantia desde que ali me sentei. então, como um daqueles reflexos que nosso cérebro não coordena, olhei novamente. virei meu rosto em uma velocidade imperceptível, talvez no mesmo rítmo das batidas que se afloravam em meu peito, e tive a certeza. apertei meus olhos para finalizar meu ritual de reconhecimento, falei qualquer coisa a minha garota, e subi as escadas as pressas, sem nem prestar atenção em meus passos durante o pequeno trajeto, sem sequer sentir a textura lisa e fria do corrimão que minha mão esquerda tateava distraidamente.
meus olhos fixaram-se nos dela. fiz sinal para que viesse em minha direção e se aproximasse. com passos discretos, ela rapidamente estava em minha frente.
não pude conter meus braços ávidos pela sintaxe do seu corpo, não consegui interromper a ação dos meus lábios ao contar sobre o que sinto, não deu pra aprisionar as palavras, nem tampouco selecioná-las. meu inabalável sonho de abraçá-la, foi realizado, mas não satisfatóriamente. meu sorriso não se desfazia, meus olhos dançavam rente aos dela, como em um sonho real. soltei minhas primeiras falas, incrédula de que aquele momento estivesse situado em algum espaço do tempo. ela sorriu de um jeito intensamente vivo em resposta, e esse primeiro sorriso pairou sobre cada mesa, exibindo-se em seu auge de beleza, deu meia volta, decidiu ficar comigo e não mais me deixar. ela disse palavras mudas, que eu decifrei minuciosamente. fiquei de prontidão para armazená-las pra relembrar mais tarde, mesmo se fosse desorganizadamente.
nos abraçamos inúmeras vezes, frases repetidas foram ditas, e em segundo algum enjoei de dizê-las. durante todo o tempo que fiquei junto dela, eu torcia para que os minutos não passassem, pra tudo fosse tão eterno quanto eu ansiava.
abracei-a com o máximo de minha ternura, expus todo o meu carinho acumulado, que ficou nítido na sutilidade com que a toquei.
minha embriaguez em demasia, foi a responsável pela minha total falta de controle e precipitação.
bendito álcool que apressa as coisas!
mas tudo bem, ela me confessou que não era a sobriedade em pessoa, e que estava em um estado etilicamente parecido com o meu. creio que isso alivie uma pequena parte de minhas parcelas de culpa.
conversamos aproximadamente por quinze minutos, e fiz de tudo para alongá-los até equivalerem a horas. nos despedíamos, e em seguida voltávamos a falar feito quem engoliu uma vitrola (hahaha).
sem sombra de dúvidas, foi uma despedida difícil.
minha vontade era de pegá-la pela mão, correr dali, largar tudo e levá-la para bem longe. e sim! sim, eu o faria. mas se não houvesse um pequeno fato me impedindo: meu prematuro pedido de namoro.
quando finalmente nos livramos uma da outra e nos despedimos, voltei a mesa com aquele sorriso permanente, e, com uma cara de pau eminente, apenas pedi desculpas por minha demora. decidimos voltar pra casa.
na volta, dei de cara com ela. nos despedimos definitivamente, e eu, outra vez lutei contra meu desejo de sequestrá-la.
ao sairmos do bar, a garota reclamou o tempo todo do meu silêncio, e eu alegava estar sem assunto. meu corpo estava ali, mas minha mente, bem longe. em cada esquina, eu sentia arder com força meus pensamentos de dar meia volta só pra poder vê-la novamente. sem poder agir de acordo com o que queria, tornei meu silêncio inquebrável.
no ônibus, simulei o mais profundo sono só pra não ter meus lindos devaneios desfeitos. abri todas as minhas entradas de delírios e me entreguei inteiramente a eles.
são 23h do dia seguinte. estou sozinha em meu quarto, e, finalmente tenho a liberdade de contar aqui, que esse quadro de encantamento ainda não foi revertido.
o que senti ao abraçar e segurar a mão daquela garota pela primeira vez, mostra-se inflexível a ponto de negar-se a se retirar mesmo que eu ordene aos brados.
esse encontro, decididamente, fez com que eu perdesse meu rumo e optasse por acabar o que havia começado.
mas é como dizem por aí: o tempo conserta tudo.
novamente, deixarei tudo por conta do dono de todas as causas, e, lembrar-me-ei sempre que ele permitir, da primeira vez em que a vi e de todos os tremores, confusões e sensações inexplicáveis que esse encontro gerou em mim.
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